terça-feira, 25 de abril de 2017

Pássaros

Angela "Pássaros"
Toda terça-feira, me encontro com Angela.
Hoje, como em todas as terças de manhãs ensolaradas nos sentamos no jardim da casa onde mora.
Angela adora observar as plantas, sentir o vento batendo e escutar o canto dos pássaros.
Semana retrasada iniciamos uma aquarela, mas ela não ficou muito satisfeita com o resultado. Em dias assim, volto para casa pensando em como reverter a insatisfação pela sua produção. Na semana seguinte, levei uma série de ilustrações de flores, plantas e pássaros, que são os temas de seu interesse, além do grande amor que tem pela praia e mar.
Propus que escolhêssemos uma de suas aquarelas antigas que ela não tinha ficado satisfeita e a usasse como fundo para uma colagem.
Logo se interessou, fui mostrando o que eu havia levado e ela foi fazendo a seleção. Angela me indicava qual imagem queria e como eu deveria cortar e depois colava sobre a sua aquarela. Eu segurava a figura recortada, Angela passava a cola de bastão e colava no lugar de sua escolha. Algumas vezes parava para observar o que estava fazendo e se mostrava nitidamente satisfeita. E assim, surgiu sua obra “Pássaros”. Encerramos nosso encontro com a promessa de que na próxima semana ela iria avaliar se o trabalho estava pronto ou não.
_. Mas eu posso dizer se está bom ou não? Pergunta Angela, antes de nos despedirmos.
_ Claro, o trabalho é seu. É você quem diz se terminou ou não.
Hoje, ao chegar na casa de saúde, fui buscar Angela na sala grande, onde todos os moradores se reúnem. Fomos para o jardim, e sempre ficamos de frente a uma grande árvore, cheia de orquídeas penduradas. Uso como apoio o banco do jardim. Chego sempre parecendo Mary Poppins, carregando uma grande sacola com todos os materiais que iremos precisar para o dia. Além disso, levo uma mesa adaptada para amarrar na cadeira de rodas e uma caixinha de som, para trabalharmos escutando música. Hoje, outras moradoras ficaram no jardim conosco escutando as músicas.
Enquanto vou me organizando coloco um pequeno cavalete com o iPad sobre a mesa para que ela possa jogar quebra-cabeças. Baixei uma coleção deles e, é um sucesso. Ela consegue escolher as figuras do quebra-cabeças e monta muito bem. No começo eram quatro peças grandes, agora já está fazendo com 16 peças.
Depois de tudo arrumado, apresento o trabalho da semana passada e pergunto se está pronto ou se podemos continuar. Angela diz que quer trabalhar mais um pouco nele. Quer pintar o céu como está hoje, muito azul. Depois de um tempo resolve que as figuras dos pássaros não estavam no lugar certo. Trocamos os lugares e ela me diz que gostaria de saber o nome de cada um dos pássaros que estão em sua colagem.
Eu não sei. Ela diz que o amarelo se parece com um que vem sempre ao jardim conversar com ela:
Angela _. Acho que é Sabiá. Eles sempre vêm conversar comigo quando estou aqui no jardim.
AC- Você consegue conversar com os pássaros? Eu pergunto.
Angela _ Sim. Eles chegam alegres falando alto e eu respondo.
AC_ E o que eles falam?
Angela _. Eles dizem que eu estou bem e que sou bonita.
AC- Nossa, é um privilégio conseguir conversar com os pássaros, não é?
Angela _. É sim. Eu fico feliz de falar com eles.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Flor-de-Lis


No domingo um casal de amigos veio aqui em casa. Na verdade, não são apenas um casal de amigos, eles são um casal de amigos bruxos. Não os associem à bruxaria do mal, com coisas do submundo. Eles entendem de coisas que estão por aí, que não vemos, mas sentimos. Conseguem interpretar o que está sussurrando. Compreendem as ressonâncias e as reverberações. São bruxos encantadores.
Mostrei a eles o trabalho que fiz junto com minha prima no sítio em Vinhedo. Minha prima havia perdido o marido e fiquei com ela durante uma semana para ajudar o seu fortalecimento. No meio do turbilhão do luto, da perda da pessoa amada, do fim de um sonho de uma aposentadoria tranquila no sítio, minha querida prima se sentiu só. Sem nada, sem planos, sem companheiro, sem suas bagunças. Só.
Fui arrumando com ela as coisas de fora para dentro. O entorno da casa estava largado. Fomos guardando coisas que haviam sobrado do churrasco que não terminou. Limpamos a churrasqueira, guardamos as grelhas. Retiramos as latas e garrafas. Limpamos o terraço. Recolhemos as ferramentas espalhadas pelo jardim e organizamos o depósito. No meio de tudo isso, jogado no tempo um carretel de madeira gigante estava esquecido no quintal. Minha prima diz que sempre quis fazer dele uma mesa com mosaico. Não tive menor dúvida, é isso que vamos fazer, catar e colar caquinhos de fora para dentro, para poder soltar o que está dentro para fora. Como um carretel.
Meu trabalho como arteterapeuta era auxiliar e incentivar a sua criação e observar o seu caminho, suas reações, expressões e falas e desenvolver um diálogo onde ela pudesse viver o seu luto, procurar soluções por meio de sua produção simbólica.
Por meio do mosaico, fomos confrontando suas dores, suas dificuldades e colocando no lugar suas ideias e emoções, organizando seus conteúdos, se descobrindo e aumentando sua autoestima e autoconhecimento.
Do mosaico que criamos surgiu uma Flor de Lis no olhar de meu amigo bruxo. Ele me explica que a Flor de Lis carrega uma potência de recriação de vida, de mensagem de uma nova Era, um processo de limpeza para um novo porvir. A Flor-de-Lis, para o sistema havaiano de cura Ho’oponopono é o símbolo de paz, onde algo irá mudar, é um veículo de luz, é a nova aliança entre o céu e a terra conectando diferentes dimensões.
A forma de usar a Flor-de-Lis é coloca-la sobre a situação conflituosa. São os nossos conflitos internos, nossos pensamentos que estão em constante guerra conosco. Se estamos bem, tudo fica bem. A paz começa conosco. Para meu amigo bruxo, ao colocarmos a Flor-de-Lis sobre o tampo da mesa para fazer o mosaico estávamos colocando de lado o sofrimento e as preocupações e difundindo uma cultura de paz.
Essa leitura externa do trabalho feito em Vinhedo, que acabou envolvendo minha prima e sua filha e a filha de sua filha, em um momento de grande paz interior, me fez ter a certeza do poder transformador do fazer artístico. Estávamos assim, por meio da arteterapia, reorganizando o caos, ressignificando afetos, transformando emoções, reordenando mundos, reutilizando materiais, mudando a percepção do mundo e abrindo caminhos para o enfrentamento de uma nova etapa na vida.




segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Quarto da Helena




Helena veio apressada ao mundo.
Chegou um mês mais cedo, no final de setembro de 2016, quando ainda estávamos projetando a parede de seu quarto.
Daniel e Renata, queriam uma pintura no quarto não convencional.
Adorei
Algo solar para quem chega ao mundo para nos aquecer me pareceu adequado.
Um pouco de rebeldia sempre faz bem, e por isso adicionei Banksy, com a sua linda menina enfrentando o mundo com um balão de coração.
Consegui fazer apenas agora, no final de janeiro de 2017.
Helena dos olhos negros, redondos e grandes, acompanhou no colo da mãe a pintura do quarto.
Daniel, Dado e eu executamos o projeto.
Um sábado inteiro dedicados a colorir o mundo de Helena.
Espero que ela goste.
Nós nos divertimos.

terça-feira, 12 de julho de 2016

De volta ao lar


De volta ao lar.
Devo dizer que a viagem foi ótima.
Os amigos David e Silvye foram maravilhosos.
Encontrar Geisa, minha "filha" mais velha, na Califórnia também entra na categoria das MARAVILHAS.
Ter a oportunidade de resgatar velhos amigos como Christian e Dulce também é uma das maravilhas da vida.
Mas, doa a quem doer, adorei voltar para o Brasil
"apesar de você amanhã há de ser outro dia.."
Voltar ao meu ateliê foi ótimo.
Ontem, Mariana Maia veio fazer o curso de encáustica Módulo I
Foi uma delícia compartilhar com ela o que sei sobre essa técnica.
Estou de volta, venham!