sexta-feira, 8 de abril de 2016

87 dias de viagem. Construção da nova cozinha



Dia 5 e 6 de abril. Sétimo e oitavo dias
Dias de acompanhar a construção da nova cozinha de Silvye.
Vai ser uma grande cozinha onde ela possa receber os amigos e hóspedes de seu B&B Beija-Flor. Silvye adora receber, cozinhar, beber e dar muitas risadas. Isso faz parte de sua vida, são as coisas que são importantes para ela. Nesses momentos de confraternização é que notamos como isso a faz feliz e como ela se doa. Os jantares são deliciosos, sempre feitos com muito carinho e muita risada. Risadas, acontecem em doses enormes durante todo o seu dia e é extremamente contagiosa. As risadas não são baixas e muito menos discretas. Elas arrombam os corações mais duros, são invasivas e ressonantes.
Silvye faz. Faz coisas o dia inteiro sem parar em uma velocidade alucinante, assim como as palavras. Ela me contou que a pediatra de Anika disse que para uma criança de um ano ela está com um vocabulário enorme. Claro, com Silvye conversando com ela o dia todo, ela já deve estar falando, inglês, português e espanhol.
Silvye ama. Ama seu filho Daniel, ama seu companheiro David, ama os amigos e sua família. É com esse amor que ela vai construindo sua vida, juntando pedaços perdidos e recuperados, guardando outros em um lugar seguro para um novo reencontro.
A cozinha nova será um bom lugar para estar.
Agora, vou falar da construção da cozinha. Reforma em casa é sempre uma confusão, uma bagunça e muita sujeira. Pois bem, aqui não é assim. A maior sujeira vem do pó da madeira, e só. Em dois dias quatro homens sendo que dois são os chefes e os outros ajudantes, fizeram o piso e as paredes da nova cozinha. Foi muito interessante acompanhar essa construção. Algumas vezes da janela da cozinha atual, outras vezes caminhando pelo jardim. Na próxima semana outra equipe irá fazer o telhado e derrubar a parede da cozinha atual para que fique uma coisa só. Estou aguardando para ver a construção, para ver os sorrisos de satisfação e a alegria de Silvye e David do fazer juntos.
É bom estar aqui.




quarta-feira, 6 de abril de 2016

87 dias de viagem. Sexto dia. Primavera explodindo


Sexto dia. Segunda feira dia 4 de abril.
Dia de baby-sitter. Fui com Silvye conhecer a bebê que ela cuida. Anika.
Passamos antes por uma loja de material de artes. Perdi o folego, muita, mas muitas coisas para todos os gostos e necessidades. Comprei algumas coisinhas para começar. Pensei em iniciar trabalhos com aquarela e rendadozen. Projetos rodando rapidamente em minha cabeça.
Fomos para casa de Anika e sua mãe nos aguardava. Lindas, as duas. Anika ao ver Silvye abre maior sorriso. Ela tem um ano de idade. Já fala algumas palavras e já aprendeu mais uma: Naca, meu apelido e é assim que Silvye me apresenta para todos.
Depois de Anika se alimentar fomos passear no Liberty Park. Lá tem um lindo lago cheio de patos selvagens. Encontramos na frente do lago um homem de chapéu de palha tocando bandolim. Fiquei com vontade de tirar uma foto, mas achei um pouco invasivo. Ele tocava para se misturar aos sons do parque e as cores da primavera. 
Nosso caminho é cheio de explosões de flores por todos os lados. 
A natureza nos mostra que chegou a primavera.

Encantem-se.

87 dias de viagem. Quinto dia. Domingo em Salt Lake City





Dia 3 de abril
Dia de apurar os sentidos
Dia de preguiça, 
De olhar as montanhas, 
De sentir o sol, 
De comer escondidinho de frango e, 
conhecer Jude.
Jude gostou do escondidinho e comeu tudo.




terça-feira, 5 de abril de 2016

87 dias de viagem. Terceiro dia. Sobre Alces, Veados, Patos e Panquecas.





Dia 1 de abril. 

Logo pela manhã, David me convida para sair para observar os alces. Silvye e Charlie, o cão, ficam na cabana dormindo no quentinho. David está animado para me mostrar a manada de alces. Seu olhar vai percorrendo as montanhas e por vezes ele para com um grande sorriso no rosto, saca o seu binóculo e me mostra o local que devo observar. Serei sincera, demorou para entender o que eu devia ver. Lembrei-me do texto de Eduardo Galeano, que podemos encontrar no Livro dos Abraços:
"Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: me ajuda a olhar!"
Divertido, David me ensinou a descobrir os alces caminhando e comendo calmamente no alto das montanhas. A princípio, não sabia o que procurar, enxergava pedras. As pedras têm uma coloração ocre e marrom e os arbustos também, assim como os alces e veados.Verde seco, ocres e marrons se misturam na paisagem do início da primavera. De repente, o cérebro aprende a olhar e a decifrar as coisas que estava vendo e...nossa, lá estão eles, dezenas de animais pastando no alto das montanhas. Incrível, aprendi a ver alces e depois disso veados. Procure pontos brancos no meio das montanhas, ensinou David. Esses pontos brancos são os traseiros dos veados. Como num passe de mágica começava a ver o bicho correndo, pulando entre a vegetação.
Voltamos para casa contornando o lago de Scofield ainda com grande parte congelado. Patos selvagens nadam e voam pelo lago. É tudo maravilhosamente belo. David quer voltar mais tarde, quando estiver mais quente para pescar truta para nosso jantar. Quando mais tarde voltamos para o lago, Silvye e Charlie nos acompanham. O lago ainda está muito congelado e vamos até o rio. Eu na minha moleza e deslumbramento da paisagem caminho a passos lentos. Silvye me acompanha me mostrando e explicando as plantas, mostrando as construções dos diques dos castores e colocando as nossas vidas em dia. David vai na frente dando as ordens, que não escutamos, e mostrando o caminho. Charlie, está feliz, corre até David e volta correndo para nos encontrar. Não para um segundo. Chegamos no rio sentamos na pedra e David já está para lá e para cá procurando os peixes. Senta desanimado: no fish.
Voltamos para o lago. Sentamos em uma pedra e David vai tentar salvar nosso jantar. Levamos uma garrafa de vinho e ficamos observando o velho cowboy tentando pescar. 
No fish. Em compensação achou um monte de patos de armadilha para atrair os patos selvagens para o lago. Levamos os patos para a cabana. Eles ficaram ornamentando o jardim.
Nosso jantar?
Panquecas



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segunda-feira, 4 de abril de 2016

87 dias de viagem - Terceiro dia. A cabana


Dia 1 de abril. A cabana
Agora vocês devem se lembrar dos filmes de cowboys nos quais mostravam a cabana que a família morava no meio do nada com a neve cobrindo o campo. É isso nossa cabana em Scofield. Uma sala-quarto, uma cozinha e um banheiro. Tudo muito confortável e “rústico”. Temos água encanada e quente, salamandra enorme que consegue aquecer todo o ambiente. Sobre nossas camas, lindos quilts, um deles feito pela mãe do David o outro da cama de casal veio junto com a casa.
David comprou essa cabana caindo aos pedaços. A casa é toda feita de madeira, no interior a madeira foi trocada pois as originais estavam todas mofadas. A parte externa é original. Se dermos a volta em torno da casa encontramos alguns remendos de madeira, o pássaro Pica-paus adora fazer furos pela parte externa da casa. Ele que tome cuidado pois David tem um rifle. Ele adora caçar alces e pescar. Toda carne consumida em sua casa é de alce que ele mesmo caçou. Não entra carne comprada em sua casa, a não ser de galinha. O peixe é truta que pesca no lago de Scofield. O peixe ele só pesca e oferece para quem gosta.



domingo, 3 de abril de 2016

87 dias de viagem. Terceiro dia. Scofield


Scolfield é uma pequena cidade mineira, menor do que Carmo da Cachoeira em Minas Gerais, Brasil. Em 1875 descobriram carvão mineral e se tornou a primeira mineradora comercial dos Estados Unidos. Em primeiro de maio de 1900, uma faísca no subsolo da mina fez com que ocorresse uma enorme explosão no subsolo e 100 homens morreram na explosão e mais 99 morreram depois envenenados pela mistura tóxica dos gases. Foi um dos piores desastres de mina de carvão da história. Alguns mineiros foram encontrados mortos ainda segurando suas ferramentas.
A mina funciona até hoje, tem um movimento enorme de caminhão indo e vindo carregando carvão o dia inteiro, além do trem que faz a viagem duas vezes ao dia com mais de 70 vagões.
Mas, a cidade está morrendo. Hoje Scofield possui apenas 14 pessoas residentes permanentes. Muitas casas são de veraneio, de pessoas apaixonadas por caça e pesca. Algumas casas estão abandonadas com mobílias dentro. É possível encontrar uma loja com vitrine montada com lindos objetos, como máquinas de escrever do início do século XX, bonecos de pano, vestidinhos de batizado, brinquedos de porcelana. Incrivelmente lindos. Em outra esquina encontramos uma drugstore com balcão, bancos e prateleira que contém alguns objetos. No fundo da loja está o local onde as pessoas se encontravam para dançar. Pelo vidro podemos ver um lindo piano e algumas cadeiras de ferro. A cadeia de filme “Far West”, é uma deliciosa e engraçada surpresa.Tudo largado, como se o tempo tivesse parado. Algo em suspensão.
Para nós, brasileiros é quase impossível  entender como ninguém pega as coisas. David me explica que ninguém mexe, existe respeito e os vizinhos estão atentos para que ninguém mexa sem autorização. “Lembre-se que estamos no Oeste, todos têm armas”, inclusive os fantasmas.
O prédio da escola é de 1928. Lindo e grande. Hoje não é utilizado mais como escola. Não existem mais crianças no local, apenas pessoas muito velhas.
Sam, mora na casa ao lado da cabana de David. Ele tem 92 anos. Vive em Scolfield desde sempre. Estudou na escola, foi ao baile lá e provavelmente foi lá que conheceu sua esposa.

Há algo de encantador nesse abandono.
Sam

87 dias de viagem - Segundo dia. Parte 2


Scofield fica há duas horas de distância de Salt Lake City. Saímos da cidade na hora do rush. Avenidas e estradas cheias, mas sem parar. Um sonho. O carro não pula, não balança, não joga a gente de lado. Um tapete liso, sem buracos. Assim a vida não fica tão pesada.
A paisagem da estrada é de tirar o folego, montanhas rochosas nevadas dos dois lados, leste e oeste. As montanhas rochosas do leste são mais altas do que a do oeste. A casa da Silvye fica perto das montanhas do leste. Do meu quarto tenho o prazer de ver um pouco delas.
David resolve que vamos comer alguma coisa no caminho. Eu na minha santa inocência achei que iríamos parar e comer alguma coisa em um dos muitos malls que tem pela estrada.

Paramos em um drive thru, Popeyes Chicken. Começamos a viver o mundo selvagem do oeste americano. Segundo David, esqueça as etiquetas, fique à vontade e curta a natureza. Grandes pedaços de frango empanado são jogados em minha mão. APIMENTADOS. Dou duas mordidas e minha boca arde enquanto a paisagem de fora me deslumbra. Perdi o folego pela comida ou pela paisagem? Paro de comer. Desculpem-me, mas comer no carro é difícil, comer apimentado é impossível. Silvye retira do saco um pote de macarrão com queijo. Desceu melhor. Seguimos a viagem e a paisagem vai ficando mais branca. Vamos subindo a montanha até encontrar o vale onde se encontra a cidade mineira de Scofield.